Discípulos Missionários de Cristo Misericordioso

Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida, SP

1. Com base na Evangelii Gaudium (n. 126), que alude às expressões de piedade popular como “lugar teológico”, ou seja, que propiciam a reflexão teológica, é possível partir do ícone de Cristo misericordioso e elevá-lo à condição de um signo de primeira grandeza a iluminar e impulsionar o projeto missionário de Aparecida, a fim de que, acima de tudo, tenhamos o olhar fixo no Coração de Cristo, a fonte da qual saem “sangue e água”, os sacramentos pascais do Batismo e Eucaristia. Os fiéis são chamados a ser discípulos missionários em virtude do seu Batismo (DA, 10), e só da Eucaristia brotará a Civilização do Amor capaz de transformar a América Latina no Continente da Esperança, do Amor e da Misericórdia (cf. DA, 128; cf. tb. 64 e 537). Para isso podemo-nos servir desta nova pintura de Cristo misericordioso [apresentada na Conferência], que traz o rosto do Cristo sofredor – O Rosto da Misericórdia –, com o qual nossos povos particularmente se identificam, pois aí eles encontram o amor misericordioso de Deus (cf. DA, 265). Assim, podemo-nos referir a ela, pedagogicamente, como uma “imagem pascal e missionária”.

Dessa forma, tendo como referência o ícone de Cristo misericordioso, estabelece-se uma correlação vital entre o Coração de Cristo, fonte de vida e misericórdia, e o tema da V Conferência Geral em Aparecida: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos nele tenham vida – Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Este tema foi sintetizado por Bento XVI, no Discurso Inaugural (n. 3), na seguinte fórmula: “a prioridade da fé em Jesus Cristo e da vida nele”. Explicando noutro lugar: “Este é o rico tesouro do continente Latino-americano; este é seu patrimônio mais valioso: a fé em Deus Amor” (Homilia na missa inaugural). Os discípulos missionários de Cristo misericordioso devem, pois, partir desse patrimônio da fé-esperança em Deus que é Amor e Misericórdia – valendo-se em larga medida da piedade popular – para realizar o programa e o paradigma missionários propostos em Aparecida. Além disso, há uma relação causal entre o Coração de Cristo e a Eucaristia, de acordo com a Tradição e o Magistério, que está na base da Civilização do Amor, o que indica o valor da imagem pascal e missionária da divina misericórdia na nova evangelização do nosso Continente.

2. Os discípulos missionários de Cristo misericordioso são portadores de um impulso “profético-missionário” que está na origem do tempo da misericórdia na Igreja. Isto significa que há, sem dúvida, um tempo da misericórdia inaugurado pelo Concílio Vaticano II, que só faz crescer e chega até Aparecida e à Evangelii Gaudium, daí o Ano Santo da Misericórdia iniciar-se simbolicamente nos 50 anos do término do Concílio (cf. MV, 4). No entanto, o impulso inicial está na “profecia cristã” representada pelas revelações de Santa Faustina, este sim, o desígnio divino e impulso profético-missionário originário que recordou a misericórdia como centro da fé, da vida e da missão da Igreja, e se torna capaz, por isso mesmo, de fazer com que “a misericórdia seja a Igreja em movimento” (lema que acompanha os Congressos da Misericórdia). Por isso, cabe fundamentalmente aos discípulos missionários de Cristo misericordioso, de acordo com as indicações de Aparecida, o dever de “perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho” (DA, 33 e 366), a fim de pôr a misericórdia no centro da nova evangelização: “Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5, 19-21).

3. A misericórdia como paradigma da Missão Continental lançada em Aparecida é outro aspecto de capital importância a ser abordado. A tradição católica dá identidade, originalidade e unidade à América Latina (cf. DA, 8), mas esse rico patrimônio está em risco por um processo concreto de erosão. Em razão disso, Aparecida exorta a “recomeçar a partir de Cristo”, pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa (cf. DA n. 12), a fim de despertar os discípulos missionários protagonistas da vida nova para a América Latina. Diante dessa situação, Aparecida constata que é preciso uma grande revitalização, um acontecimento como uma nova evangelização da América Latina, concebida na forma de uma Missão Continental – eis o compromisso que emergiu na V Conferência, visando a pôr a Igreja em “estado permanente de missão”, tendo como força viva os “discípulos missionários de Cristo misericordioso” (cf. DA nn. 362 e 551), pois estes são capazes do impulso profético-missionário necessário para cumprir tal tarefa.

O que define o tempo da misericórdia na Igreja é a transversalidade da misericórdia, isto é, o tempo em que a misericórdia se torna transversal na vida e na missão da Igreja. Se a Igreja é unidade na diversidade, esta unidade, nas suas multiformes expressões, há de ser identificada pela misericórdia, pois “a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia” (MV, 10). Nesse sentido, a Missão Continental posta em marcha em Aparecida, só pode configurar-se como tal na perspectiva da transversalidade da misericórdia, isto é, na medida em que for unificada pela misericórdia; só assim a Missão Continental enfrentará os desafios que ameaçam a unidade da tradição católica no Continente; só mediante a força viva dos discípulos missionários, promovendo o encontro com Jesus Cristo misericordioso, é que verdadeiramente estaremos em estado permanente de missão e seremos protagonistas de uma vida nova para a América Latina – e vida em abundância (Jo 10, 10).

4. A misericórdia e uma “cultura do encontro” também caracterizam o Documento de Aparecida, o qual foi elaborado tendo como um dos eixos principais a categoria encontro, isto é, “o dom do encontro com Jesus Cristo”, a ser comunicado pelos discípulos missionários (cf. n. 14). A expressão “cultura do encontro” não aparece no Documento de Aparecida, mas tem sido frequentemente utilizada pelo Papa Francisco e contém um profundo significado evangélico, eclesial e pastoral, na medida em que tem sua raiz na misericórdia, permitindo descobrir a transversalidade da misericórdia no Documento Conclusivo, que já na Introdução apresenta as seguintes premissas: “Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário  com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários” (n. 11) [...] “A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que ‘não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva’” (n. 12).

E foi o próprio Papa Francisco que em mais de uma ocasião revelou o significado desse “encontro” como um encontro com a misericórdia de Cristo; por exemplo, no Discurso ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (14/10/13): “É inútil dispersar-se em numerosas atividades secundárias ou até supérfluas, mas é preciso concentrar-se na realidade fundamental, que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, com o seu amor” (v., especialmente, Discurso ao movimento Comunhão e Libertação, em 7/3/15; Bula Misericordiae vultus, 8; é importante conferir tb. o artigo do filósofo Massimo Borghesi, de 2014: “BERGOGLIO Y GIUSSANI. Las sintonías profundas entre el futuro Papa y el futuro Beato (si Dios quiere). Del hombre “religioso” al “encuentro” cristiano”, publicado pelo website Tierras de America, de Alver Metalli).

É preciso recordar que o Cardeal Bergoglio foi o presidente da Comissão de Redação do Documento de Aparecida. Nessa posição, exerceu decisiva influência sobre os rumos que tomou Aparecida, ao ponto de o “encontro com Jesus Cristo” ter orientado toda a elaboração do Documento Conclusivo, o que mais uma vez permite descobrir a transversalidade da misericórdia em Aparecida, já na sua concepção, de acordo com os belos e iluminadores parágrafos que abrem o Capítulo VI (nn. 240-245). Tanto é assim que os traços distintivos dos discípulos missionários de Cristo misericordioso, segundo emergem do Documento de Aparecida, se revelam, expressamente, como “lugares de encontro com Jesus Cristo”. Estes são a Sagrada Escritura (nn. 247-249), a Eucaristia (nn. 250-253), o Sacramento da Reconciliação        (n. 254), a oração pessoal e comunitária (n. 255), a comunidade viva na fé e no amor fraterno (n. 256), os pobres, aflitos e enfermos (obras de misericórdia) (n. 257). E ainda são dedicados oito números (258-265) à “piedade popular como lugar de encontro com Jesus Cristo”.

5. Também é necessário tecer algumas considerações a respeito de um tema emblemático: a civilização do amor e a “cultura da misericórdia” (esta segunda expressão não consta no Documento Conclusivo, mas já tem sido proposta na Igreja). O Documento de Aparecida adotou a definição de cultura lato sensu do Concílio Vaticano II: “A fé só é adequadamente professada, entendida e vivida, quando penetra profundamente no substrato cultural de um povo. Desse modo aparece toda a importância da cultura para a evangelização” (DA, 477). Aparecida insiste na unificação do nosso continente no amor e na misericórdia (cf. nn. 520-521-522-525-526-528). Essa unidade começa na fé-esperança dos povos do nosso continente (cf. DA, 536) e tende a se orientar até a misericórdia de Deus, a fim de que a América Latina e o Caribe se tornem o espaço próprio para a construção de uma verdadeira Civilização do Amor, mediante o “eixo cultural radical” consubstanciado em uma cultura da misericórdia (cf. DA, 543, in fine).

Assim, é importante notar que a esperança teologal que se encontra no substrato cultural dos nossos povos – esperança que, segundo o “sensus fidei”, se orienta para a misericórdia de Deus – já indica por si mesma a necessidade de que o eixo cultural de uma nova sociedade, como exorta o Documento de Aparecida, seja estabelecido mediante uma “cultura da misericórdia”, de modo a conferir a unidade pretendida aos povos latino-americanos.

A Civilização do Amor é a situação final, portanto devemos construí-la mediante a Cultura da Misericórdia, pois de acordo com a Comissão Teológica Internacional, no documento Fé e Inculturação (1988), no tópico inculturação da fé e salvação da cultura: “A cultura é o lugar em que o homem e o mundo são chamados a encontrar-se na Glória de Deus” (II, 30). Entre a “evangelização da cultura” e a “inculturação do Evangelho”, o Papa Francisco privilegia a segunda: “evangelização como inculturação” (cf. EG, 122).